"Cultura drag é missão." - Gloria Groove

#TenYearChallenge RuPaul's Drag Race



A Netflix Brasil voltou a disponibilizar no catálogo nove temporadas de Drag Race, incluindo a primeira, que costuma ser meio esquecida pelos fãs, inclusive por mim mesma, pois eu devo admitir que só parei pra assisti-la agora. E bem, com essa onda de TEN YEARS CHALLENGE, por que não pararmos um minutinho pra perceber o quanto as coisas mudaram entre a temporada um e a temporada dez? E principalmente: o que não mudou e ainda precisa mudar?


Talvez a coisa que mais chama atenção na primeira temporada seja (depois do filtro de imagem) a inocência do formato e das próprias participantes. Ninguém ali sabia direito como seriam os desafios, o que os jurados estavam procurando e como realmente o programa se tornaria um sucesso a ponto de mudar suas vidas para sempre.

Todas as participantes faziam drag há algum tempo e tinham suas personas muito bem definidas, o que as conduziu a um enorme atrito com as críticas dos jurados (que realmente pareciam ter a única intensão de ofendê-las e criar tensão). Tammie Brown foi a primeira a dizer “Quer saber? Meu estilo é esse e eu não vou tentar me adequar por um prêmio em dinheiro”, ao contrário de Shannel, que tentou atender às expectativas dos jurados em vão. E por mais respeito que elas possam ter por RuPaul, não aceitaram o modo negativo como o programa lidava com seus trabalhos. Provavelmente, todas pensaram que Drag Race seria mais como uma vitrine do que como uma disputa agressiva.

Temos alguns dramas claramente forçados pela produção, uma RuPaul bem alegrinha, mas assediando uma das queens pelo seu tuck mal feito (que feio, Ru!). E destoando da atualidade, temos um lipsync battle em que Bebe perdeu a peruca e venceu mesmo assim, coisa que hoje em dia jamais aconteceria.


Não tínhamos ainda Michelle Visage ocupando o espaço de única mulher do programa, mas tínhamos Merle Ginsberg, mais suave e menos exigente.


As queens mal sabiam desfilar, e o desafio em grupo trouxe coreografias super amadoras que em 2019 seriam MASSACRADAS, mas na época, foram consideradas ok, porque levava-se em consideração a diversão e o esforço mais do que a excelência da execução.


É bem mais legal também ver a reação natural da Bebe Zahara ganhando o programa do que a reação pré-gravada da Aquaria.


E acredito que existe uma infeliz coincidência entre a primeira temporada e a décima: o sermão egocêntrico de RuPaul no Reunited. Digo ser uma coincidência infeliz porque depois de tanto tempo, seria ótimo não precisarmos mais lidar com isso. Enquanto na primeira temporada, Tammie, Ongina, Shannel e Jade apontaram que se sentiram mal com as críticas pesadas sobre seus estilos e comportamentos, na décima temporada, tivemos Asia O’Hara defendendo que “drag queens também são pessoas” e afirmando ser ridículo o comportamento de RuPaul diante da saída de The Vixen da reunião. Em ambos os casos, RuPaul respondeu que a vida é assim mesmo, que ele enfrentou muito preconceito para chegar aonde chegou e que elas precisavam aprender a ser e agir da mesma forma.


Ok, eu entendo que o programa se chama RuPaul’s Drag Race e por isso temos a perspectiva de RuPaul sobre vida e competição. Entendo também que elas se colocaram na posição de serem julgadas. Entendo que é televisão e que na época vários realities tinham uma postura de crueldade mesmo. Entendo que o público AMA um drama, mas não canso de me perguntar se não foi o próprio formato que alimentou esse fanatismo furioso de muitos fãs de Drag Race. Veja, o mundo drag é muito maior do que um programa de TV, mas muita gente conhece a arte apenas pela ótica do programa, e muitas vezes as queens se passam por vilãs de um enredo quase de novela, passam por críticas de jurados que não aceitam seus estilos (como no caso da Adore que até desistiu da competição), passam pela pressão do jogo e da exposição em nome do sonho de uma carreira bem sucedida. É meio sádico! E não estou nem falando de All Stars, que impõe uma rivalidade ainda maior numa comunidade que deveria ser unida. 

Desde o início, elas foram apresentadas como produtos, sendo que drag é uma arte muito mais completa, bonita e complexa do que isso, vinda de um cenário de muita desvalorização, carência afetiva e preconceito social. É triste realmente que pessoas que já passam por situações difíceis na vida tenham que passar por isso dentro de um espaço teoricamente “acolhedor”.

Outra coisa que aconteceu no Reunited da season 1 e da season 10 foi a implicância de todas as queens com uma queen específica formando um bullying coletivo. Rebecca Glasscock / Kameron Michaels. E se você parar pra pensar, isso acontece em quase todos os Reuniteds. 


RuPaul’s Drag Race revolucionou o modo como as pessoas encaram a arte drag hoje em dia, mas ainda segue alimentando negatividade disfarçada de crítica construtiva. E eu não estou aqui pra reclamar do programa e ouvir “se acha ruim, não assiste”, mas sim pra apontar o quanto já é incrível e ainda pode melhorar.

A própria RuPaul já tem uma vibe mais “queria estar morta” na bancada, e todas as conversas sobre bastidores apontam que ela não manda mais em nada, que não sabe os nomes das queens, que segue um script. De quem é o programa então? As drag queens estão nas mãos de alguém que entende/respeita sua cultura ou alguém que viu uma oportunidade de lucrar com os sonhos alheios, mesmo que para isso elas precisem se machucar?


Sei lá. Dez anos se passaram. A arte drag ganhou um espaço enorme. Novas barreiras surgiram. E eu particularmente ainda amo a RuPaul, mas muitas perguntas continuam sem respostas.


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