Eu sei que só de ver a palavra PRECONCEITO, você já desejou automaticamente sair correndo e ler fofoca ou coluna de esporte. Afinal, esse assunto é tão chato, não é? Coisa de gente “mimizenta”… Falar resolve alguma coisa? Ler este texto vai mudar alguma coisa na sua cabeça? Talvez sim, talvez não. Se você não se der a chance de ouvir, nunca saberá o quanto tem a evoluir como ser humano. E é óbvio que todos queremos evoluir, se não, não existiria propósito em continuar vivendo em sociedade.
Mas vamos direto ao ponto, sem meias palavras: você se considera uma pessoa preconceituosa? Provavelmente disse que não, ou quem sabe até disse “um pouco”, mas dificilmente alguém dirá que é preconceituoso sim, que acha engraçado ou incômodo um casal de homens andando de mãos dadas na rua, que troca de calçada quando vê um rapaz negro por pensar que ele vai te assaltar, que faz piada com cego, que considera vulgar uma mulher de minissaia ou que zomba do sobrepeso do coleguinha, porque é “só uma brincadeira”. A sociedade anda meio chata, não é? Não se pode mais falar nada, que coisa!
Ao contrário do que você pensa, o problema real não é a modernidade dos tempos ou a “exibição depravada” de nu artístico em museu, o que você chama de “chato” é só a verdade finalmente sendo dita. E a verdade é horrível, sinto lhe informar, pois ela tira nossos panos e revela o impensável: nós somos todos preconceituosos. Pode me incluir nessa. Nós reproduzimos discursos racistas, machistas, homofóbicos sem nos darmos conta, e se a sociedade lhe parece “chata” de uns tempos pra cá, é porque ninguém mais está afim de tolerar o intolerável. No dicionário a palavra PRECONCEITO se classifica como um “juízo pré-concebido”, mas de onde vem esse pré-conceito do que é certo, errado, elegante e difamatório? Vem de inúmeras gerações, vem de como dividimos o mundo em rosa e azul, de como as coisas nos foram ensinadas dentro de casa, na mídia, nos jornais. Se você pegar alguma revista dos anos 1950 provavelmente considerará ridícula a ideia de que as mulheres eram ensinadas a desligar os aparelhos domésticos da tomada para minimizar os ruídos e tornar a casa um ambiente agradável para o marido. Se isso já não acontece hoje é porque a sociedade evolui, e se por um lado você pode se abster da culpa de ter sido criado com uma visão de mundo ultrapassada, você não pode se abster da responsabilidade de acompanhar a evolução social. Você tem culpa sim ao reproduzir hábitos maldosos e disseminá-los por aí.
“Mas, caramba, eu não quero ser preconceituoso, mas também me sinto muito atacado, porque eu não posso falar mais nada! Como identificar o que é brincadeira e o que é preconceito?”. Vamos lá, não é tão difícil assim. Se você presta atenção em tudo o que coloca na boca, por que não presta atenção no que sai dela? As palavras são a arma mais poderosa de destruição e de cura. Cuidado com o que você coloca no mundo, apenas. Você insinuar que seu amigo heterossexual é gay como se isso fosse um vexame deixa a entender que você acha vexaminoso ser homossexual, entende? E enquanto você acha isso engraçado, só uma piada, um menino numa cidade do interior está levando surra porque falou mais fino na hora de pedir uma sobremesa. Jovens se suicidam todos os dias com medo de assumir suas identidades de gênero ou orientação sexual. Outros morrem em decorrência de distúrbios alimentares numa sociedade que cultua um padrão de beleza impossível. Você já sabe disso, você lê os jornais, é uma pessoa bem informada. Só falta agora ouvir mais do que falar. Se você está na dúvida se o que vai dizer é preconceituoso ou não, pergunte a si mesmo, pergunte a quem vai te ouvir, ou opte pela opção sagrada de não dizer nada. Entenda a única coisa que todos nós temos em comum: somos seres humanos e merecemos ser tratados como tais. Aprenda a conviver em harmonia com as diferenças entre as pessoas. Tenha paciência consigo mesmo e com as dúvidas que surgirem na sua cabeça, mas não as ignore, vá atrás de respostas. E se em algum momento disser alguma bobagem, não tenha vergonha de pedir desculpas, não há ato mais nobre do que assumir os próprios erros.
Pronto, é só isso. Por enquanto. E então, vai se transformar junto com o mundo ou continuar vivendo na ilusão de que o mundo vai se adequar a você?

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