Quer me fazer dormir? Inicie a frase com “ah, mas a voz da Pabllo Vittar…”. Ops, dormi! Espera. Vamos começar de novo. Eu vou falar desse assunto uma única vez e chega (já estamos em 2018, viremos a página).
A primeira vez que eu ouvi a voz da Pabllo foi no carnaval do ano passado. As pessoas nos blocos de rua gritavam o nome dela sem parar e só se acalmavam quando o carro tocava “Todo dia”. Ali eu soube que se tratava de algum fenômeno que eu não conhecia. Não dei muita bola. Segui com a minha vida esperando o bloco tocar Anitta.
Nos meses seguintes, não teve quem não ouvisse falar em Pabllo. “Open bar” tocava em todas as festinhas, “Minaj” também, até chegar em “K.O.”, que foi quando eu me rendi e comecei a escutar mesmo. Se eu gostava da voz? Não gostava nem desgostava. Eu curtia a música como curto várias músicas pop de cantoras que também são criticadas pela voz (oi Britney). Logo começou essa onda de repúdio contra Pabllo, o que não me surpreendeu nem um pouco, afinal ele é um menino gay muito seguro de si montado como uma mulher ocupando espaço na grande mídia, e o timbre de voz “afeminado” é a melhor desculpa que alguém pode ter pra cuspir homofobia disfarçada de preferência musical.
“Ai, mas só porque eu não gosto da voz da Pabllo eu sou homofóbico?” Não. Seu gosto pessoal não tem nada a ver com sua posição política/social, mas sim a maneira como você se manifesta quanto a isso. A voz da Pabllo é uma voz que fala por uma comunidade, uma voz que representa pessoas que um dia se sentiram oprimidas por ser quem são. Você consegue entender isso? A voz da Pabllo dá esperança pra muita gente, dá visibilidade, orgulho e levanta a bandeira da diversidade. Ela transcende a bolha LGBT+ e chega nos programas de TV dominicais assistidos por senhorinhas. Ela me diz que eu posso alcançar o sucesso sendo exatamente do jeito que eu sou e trabalhando honestamente por isso. Ela me permite sonhar dentro de um país que todos os dias me dá mais motivos pra desacreditar. Então se você escolhe diminuir um artista pelo timbre de voz e ignorar tudo o que ele representa, você está sim colaborando com os opressores, aqueles que inventam histórias absurdas sobre a Pabllo Vittar engravidar bailarina do Faustão ou se candidatar a cargos políticos. Bitch, please.
É muito simples. Não gosta da voz, troca de música. O tempo que você gasta comentando asneira nas notícias sobre Pabllo Vittar, você poderia muito bem estar descobrindo artistas novos que te agradam. Não desmereça a luta e a carreira de alguém que durante toda a vida enfrentou e ainda enfrenta uma onda de ódio causada por questões culturais e religiosas. Não é sobre as letras, não é sobre o ritmo, não é sobre o timbre (E PELO AMOR DE DEUS, NÃO É SOBRE O FREDDIE MERCURY), a voz da Pabllo é sobre resistência e eu espero que ela siga ecoando como uma das mais ouvidas no Brasil por um bom tempo.
Texto originalmente postado em janeiro/2018 aqui.


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