"Cultura drag é missão." - Gloria Groove

Daisy



Eu disse a mim mesma que se um dia eu fizesse drag não me levaria tão a sério. Era um lance sensível. Estar na posição de espectadora é muito confortável e, de certa forma, eu me sinto respeitada. Eu gosto de filmar, de gritar, de aplaudir, e de ser seduzida pela magia. Eu temia que isso se tornasse algo pra preencher meu ego, e não algo que eu faço por outras pessoas. Drag pra mim é sobre os outros. Não quero que mude.

Mas tinha essa música, e essa música me pediu pra performá-la. Tinha a Daisy, que se autobatizou sem que eu pudesse escolher meu nome drag de verdade. A Daisy é essa popstar fracassada que mora em mim desde os 12 anos. Era ela que ia pra faculdade com cílios postiços e apliques no cabelo. Foi ela que inventou de cantar, de criar música, de fazer show, mesmo eu insistindo que a gente não nasceu pra isso. Houve um ano em que eu pensei que tivesse matado a Daisy, mas ela estava só em coma, e agora acordou. E como todo doente terminal, acordou hipersensível e exposta a todo tipo de dor, e eu tentei protegê-la, eu juro que tentei.

A Daisy chegou na festa querendo beber. Eu não deixei, porque ela fica mal quando bebe, e ela já não estava muito bem. Daisy estava puta, porque nove das dez pessoas muito importantes não foram ver sua performance. Eu repetia “Daisy, seja madura, é só uma música, não é nada demais. Tem um monte de gente legal aqui.”, mas a Daisy tem aflição de rejeição, de solidão e de tudo que termina com ão. Foi difícil dar suporte a ela, pois em mês de aniversário eu também fico frágil a ausências.

Então Daisy fez seu show. Foi ótimo, disseram. Gritaram muito. Teve gente que chorou. Ela sabe que foi bem e, com grande esforço, a música finalmente saiu da gente. Nós já não devíamos mais nada pra música. Mas eu ainda devia alguma coisa a Daisy. Eu devia a ela o direito de se sentir mal. Ela precisava chorar, precisava fazer birra dentro de mim, bater nas nossas paredes, se atirar no chão e dizer que ninguém a ama. Eu permiti. Eu sabia que dessa vez ela tinha razão, mesmo que fosse uma especie de razão irracional, uma razão sentimental. Pobre Daisy, não é fácil ser ela. Tive pena. Ela dá pena.

Depois disso, Daisy voltou pro coma. Eu sei o quanto ela quer viver, mas não vai dar pra tirar seus aparelhos outra vez. Daisy é vegetal. Eu sou minério. Daisy é protagonista. Eu sou coadjuvante. Daisy não vive sem mim e eu não sei se vivo sem ela. Mas vou tentar.

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A voz da Pabllo


Quer me fazer dormir? Inicie a frase com “ah, mas a voz da Pabllo Vittar…”. Ops, dormi! Espera. Vamos começar de novo. Eu vou falar desse assunto uma única vez e chega (já estamos em 2018, viremos a página).
A primeira vez que eu ouvi a voz da Pabllo foi no carnaval do ano passado. As pessoas nos blocos de rua gritavam o nome dela sem parar e só se acalmavam quando o carro tocava “Todo dia”. Ali eu soube que se tratava de algum fenômeno que eu não conhecia. Não dei muita bola. Segui com a minha vida esperando o bloco tocar Anitta.
Nos meses seguintes, não teve quem não ouvisse falar em Pabllo. “Open bar” tocava em todas as festinhas, “Minaj” também, até chegar em “K.O.”, que foi quando eu me rendi e comecei a escutar mesmo. Se eu gostava da voz? Não gostava nem desgostava. Eu curtia a música como curto várias músicas pop de cantoras que também são criticadas pela voz (oi Britney). Logo começou essa onda de repúdio contra Pabllo, o que não me surpreendeu nem um pouco, afinal ele é um menino gay muito seguro de si montado como uma mulher ocupando espaço na grande mídia, e o timbre de voz “afeminado” é a melhor desculpa que alguém pode ter pra cuspir homofobia disfarçada de preferência musical.
“Ai, mas só porque eu não gosto da voz da Pabllo eu sou homofóbico?” Não. Seu gosto pessoal não tem nada a ver com sua posição política/social, mas sim a maneira como você se manifesta quanto a isso. A voz da Pabllo é uma voz que fala por uma comunidade, uma voz que representa pessoas que um dia se sentiram oprimidas por ser quem são. Você consegue entender isso? A voz da Pabllo dá esperança pra muita gente, dá visibilidade, orgulho e levanta a bandeira da diversidade. Ela transcende a bolha LGBT+ e chega nos programas de TV dominicais assistidos por senhorinhas. Ela me diz que eu posso alcançar o sucesso sendo exatamente do jeito que eu sou e trabalhando honestamente por isso. Ela me permite sonhar dentro de um país que todos os dias me dá mais motivos pra desacreditar. Então se você escolhe diminuir um artista pelo timbre de voz e ignorar tudo o que ele representa, você está sim colaborando com os opressores, aqueles que inventam histórias absurdas sobre a Pabllo Vittar engravidar bailarina do Faustão ou se candidatar a cargos políticos. Bitch, please.
É muito simples. Não gosta da voz, troca de música. O tempo que você gasta comentando asneira nas notícias sobre Pabllo Vittar, você poderia muito bem estar descobrindo artistas novos que te agradam. Não desmereça a luta e a carreira de alguém que durante toda a vida enfrentou e ainda enfrenta uma onda de ódio causada por questões culturais e religiosas. Não é sobre as letras, não é sobre o ritmo, não é sobre o timbre (E PELO AMOR DE DEUS, NÃO É SOBRE O FREDDIE MERCURY), a voz da Pabllo é sobre resistência e eu espero que ela siga ecoando como uma das mais ouvidas no Brasil por um bom tempo.

Texto originalmente postado em janeiro/2018 aqui.
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A nova jornada de Alaska


Hieee! Vocês já viram quem chegou ao top3 de álbuns mais comprados do iTunes? Alaska Thunderfuck lançou na sexta-feira passada, dia 17, seu novo trabalho de estúdio: The Amethyst Journey em parceria com o melhor amigo (e pianista maravilhoso que a gente ama forte) Jeremy Mikush.

Eu, como boa fã obcecada pela Alaska, ouvi o álbum incansavelmente e vim contar pra vocês o quanto o som é diferente do que a gente está acostumado a ouvir da Lasky. Não são composições sobre "shade" ou sobre drag, ou lotadas de bordões cômicos e frases pegajosas como as músicas dos dois primeiros álbuns Anus e Poundcake. Dessa vez, encontramos uma Alaska espiritualizada, questionando a existência de extraterrestres, desabafando sobre a solidão de uma artista que vive na estrada, alertando sobre a destruição do meio ambiente e trazendo uma sensação circular de realmente estarmos acompanhando uma jornada enquanto ouvimos.

De forma lúdica e com influências sonoras bem maduras e diversificadas, The Amethyst Journey nos traz o lado mais doce e vulnerável da Alaska, ao mesmo tempo em que é capaz de nos conectar aos temas presentes nas canções. É curioso observar que na capa (assim como no vídeo de Aliens e nas entrevistas de divulgação do álbum), Alaska está com um visual muito natural quase sem maquiagem, usando seu próprio cabelo escuro, roupas mais largas, sem enchimento corporal, completamente diferente da Alaska 5000 loira e sedutora. Um projeto certamente arriscado, corajoso e que expõe muitos sentimentos até então camuflados numa drag persona.

Dentre as faixas que mais se destacam, Aliens já ganhou até videoclipe. Era de se esperar que em algum momento, Alaska falasse sobre vida extraterrestre, já que ela veio do planeta Glamatron. A música questiona o que os alienígenas poderiam ensinar aos seres humanos e como seria nossa interação com eles. A faixa 3 do álbum, So Far Gone, é uma das composições mais bonitas da Alaska, uma baladinha triste sobre como ela se sente distante de tudo quando está em turnê. Parte o coração! Já em Son of a Mother, Alaska canta "não se esqueça, garoto, que você é filho de uma mãe" e em recente entrevista para o Yahoo ela comentou que está na hora de as mulheres assumirem o comando do planeta, porque os homens nunca fizeram isso muito bem, e que sua intenção com essa letra é lembrar aos garotos que eles nasceram do ventre feminino e devem respeitar as mulheres. EU AMO UMA RAINHA QUE DEFENDE NOSSAS CAUSAS!

O álbum já está disponível em algumas plataformas de streaming, e o clipe você encontra no canal da Alaska com o Jeremy:









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