A foto da Miz Cracker e o título sensacionalista foram só
pra te fazer clicar na matéria. É assim que funciona a produção de biscoito na
internet: “preciso expor a colega antes que alguém exponha e ganhe ibope em
cima disso”. Natural. A maior parte de nós cresceu vendo Sônia Abraão. Mas a
gente vai falar da Miz Cracker sim, afinal ela é o ranço do dia, né? E talvez o
ranço do dia de amanhã seja eu por causa desse texto. Então deixa eu já te dar
alguns motivos pra me considerar a pessoa mais songa monga da face da Terra:
sou mulher cis, branca, bem padrão, do tipo que teoricamente anda na rua
tranquila. O máximo de bullying que eu sofri na escola foram pequenas
humilhações por ser uma criança gorda e uma tentativa de espancamento quando a
sala inteira pensou que eu fosse lésbica. Não vou entrar em detalhes sobre
abusos psicológicos familiares, porque não estou tentando me provar vítima de
nada, muito pelo contrário, eu sou extremamente consciente dos meus privilégios
e do quanto posso usá-los para dar voz a quem não está sendo ouvido. Já me
acostumei a escutar “pra uma mina branca você até que é inteligente” e juro, de
verdade, que não me incomodo em ter que me provar o tempo inteiro para o grupo que
defendo. Não escolhi a causa LGBT+ por causa de divas pop ou reality shows. Não
existe “escolher uma causa” quando você pertence àquela causa. Não existe “abandonar
o grupo” quando você não é parte do grupo, o grupo é que é parte de você. E a
sociedade é tão cis heteronormativa que até mesmo pessoas esclarecidas não
conseguem entender que não seguir esse padrão não se trata de escolha, de fase
ou de rebeldia, mas sim de identidade. Eu não sofro na pele coisas que muitos sofrem, mas sonho que, algum dia, entendam que eu estou na luta e na rua junto com todos que não se cabem em caixas.
Ah, é! A Miz Cracker. Eu sei que nos reunimos aqui pra falar
mal dela hoje, então vamos lá. Resumindo: ela esteve no Brasil para dois shows
nesse fim de semana. Um no Rio de Janeiro, outro em São Paulo. Houve
controversas a respeito do show do Rio de Janeiro e algumas pessoas relataram
que ela foi escrota, que não se posicionou politicamente, entre outros pontos.
Outras pessoas relataram que ela estava sendo irônica e que a galera não
entendeu. Eu não estava lá. Eu não posso afirmar nada. O que eu posso fazer é
compreender que todo artista causa diferentes reações e que todo mundo tem
direito de expressar suas decepções. Ponto. É sobre isso que eu quero falar:
sobre expressar suas decepções.
A natureza humana é comprovadamente falha. A gente sente
prazer em ver o outro se dar mal. A gente ADORA ver o circo pegar fogo. A gente
quer sim ter motivos pra odiar e disseminar ódio por aí. Não se sinta mal por
se sentir assim, somos todos iguais. Agora, se sinta mal se você não controla
esse instinto. Porque é o controle dos nossos instintos que define quem somos
de verdade. E em tempos de fascismo, o que não falta é gente se rendendo ao
ódio que sempre guardou no peito e jorrando isso para o mundo, refém do ego,
expondo a própria imperfeição com orgulho. De que lado você está nesse momento?
Você tem certeza que não está do lado de quem está espalhando ódio? Você parou
pra pensar que destruir a imagem de alguém online só causa mais transtorno? Dá
pra falar mal do colega off-line. E é óbvio que nós falamos mal de várias
pessoas e sabemos que falam mal da gente. Não temos como gostar de todo mundo
que está no nosso grupo, mas temos a opção de não usá-los como gasolina pra
levantar mais labaredas. Quando você expõe ranço na internet, você perde o controle da toxicidade do seu pensamento.
Tudo bem. Eu entendo. O posicionamento individual se tornou
uma cobrança coletiva. Pessoas que nos representam e que estão na mídia
deveriam ser as primeiras a dar a cara a tapa por nós em vários aspectos, afinal, é isso que
esperamos delas. Mas por que esperamos isso delas? Por que acreditamos que elas
precisam ser exatamente iguais a nós na maneira de falar, de se portar e de
agir? Por que só o SEU modo de se posicionar é o modo válido? “Eu aqui na rua tomando bala e a fulana em
casa rezando”. Cada um tem sua própria coragem, e é isso que transforma alguns
em heróis e outros em meros mortais. Nós nunca vamos conseguir nos unir
enquanto tentarmos fazer com que sejamos todos exatamente iguais. Estenda a mão
ao irmão que está com medo, ele precisa de você também. E perdoe os nossos
próprios erros, muitos de nós nunca lutamos contra o fascismo antes.
Para encerrar sobre a Miz Cracker: o único relato que eu
posso fazer é do meu ponto de vista (que eu não colocaria na internet se não
fosse positivo). Ela era indiferente pra mim durante a temporada do programa e,
ontem, foi uma das pessoas mais doces e good vibes que eu conheci. Muito
atenciosa no meet, muito carismática no palco, disse que estava com medo de vir
ao Brasil, pois lhe foi dito que o Brasil está mudando. Disse que não quer que
o Brasil mude. Disse que pensou na nossa coragem e se sentiu mais a vontade
para vir. Disse ainda que tem família no Brasil e que a nossa luta está no
sangue dela. Elogiou todas as drags nacionais e pediu aplausos para elas. Foi
isso que EU vi. E mesmo que tivesse visto outra coisa, jamais incentivaria o
ódio a alguém que está do mesmo lado que eu.
Pronto, agora já podem jogar suas indiretas "rançorosas" sobre mim.
